domingo, 16 de fevereiro de 2014

Vacinas e vacinações
Môsar Lemos

Introdução

Uma das formas de proteger o plantel de combatentes contras as doenças é através do uso consciente de vacinas. As vacinas sozinhas não são capazes de evitar o aparecimento de um surto de doença no criatório, pois elas representam uma parte do programa de prevenção sendo as boas práticas de manejo, limpeza e desinfecção tão importantes quanto um bom programa de vacinação.

O que são as vacinas?

Podemos definir uma vacina como um produto biológico produzido a partir de vírus, bactéria ou mesmo um protozoário e que seja capaz de induzir na ave uma resposta imunológica que a proteja de uma infecção com aquele bioagente.
            A imunidade é a capacidade que o organismo tem de suportar e se defender contra a invasão de um bioagente. A imunidade pode ser ativa ou passiva, natural ou artificial. Ela é ativa quando o organismo da ave recebe estímulos para produzir anticorpos podendo ser natural quando a ave adquiriu a infecção, ou artificial quando a ave é vacinada. A imunidade é passiva quando a ave já recebe os anticorpos prontos, sendo natural quando o pintinho recebe os anticorpos maternos que o protegerão nos primeiros dias de vida, ou artificial quando é feito um tratamento com soro hiperimune (soroterapia).
            Podemos dizer então que a vacinação é a indução de imunidade ativa de forma artificial, contra um determinado bioagente.
As vacinas podem ser vivas ou mortas, dizendo-se que estão atenuadas, pois os danos que produzirão no organismo da ave serão mínimos, ou que estão inativadas e, portanto incapazes de produzir danos ao organismo. Existem vantagens e desvantagens inerentes aos dois tipos de vacinas. Veja a tabela 1.
            As vacinas podem ser aplicadas de forma individual, ou seja, uma ave de cada vez, ou de forma massal para todo o lote de aves de uma só vez.

Métodos Massais

A utilização de vacinas por métodos de aplicação em massa tem sido de grande utilidade para a avicultura comercial, que trabalha com grandes lotes, por facilitar os processos, aplicando grandes volumes de vacina em menor tempo e com um número reduzido de pessoas. Entretanto também pode ser utilizada com sucesso nas pequenas criações de raças combatentes. Para algumas doenças a via spray pode vir a ser utilizada desde que se trabalhe com uma gota bem grossa (acima de 150µm). Para Newcastle e Bronquite deve-se trabalhar com gotas em torno de 50 a 100 µm nas primeiras vacinações; e para Micoplasma usar gotas mais finas. Em aves acima de 6 semanas de idade usar gotas menores que 50 µm.
Os métodos massais de aplicação de vacinas requerem uma grande atenção às normas de utilização.  O sucesso vai depender dos cuidados no preparo e aplicação dos produtos, pois não é possível garantir que todas as aves receberam a dose correta de vacina. Somente o procedimento adequado permitirá que toda a população receba uma boa cobertura vacinal.
A vacinação através de spray é mais utilizada em grandes lotes na avicultura industrial, não sendo muito adequada para as pequenas criações de combatentes.

Água de bebida

Preparação da vacina
Suspender o uso de desinfetantes (cloro, amônia ou medicamentos) na água de bebida pelo menos 24 h antes da vacinação, não utilizando recipientes metálicos, e adicionar 2g de leite em pó desnatado por litro de água a ser usada para a vacinação, visando estabilizar e homogeneizar a solução.
Identificar corretamente o produto a ser usado, através do rótulo e da cor do liofilizado, abrindo o frasco de vacina removendo o selo de alumínio e a tampa de borracha e adicionar aproximadamente 3 ml de água limpa. Em seguida fechar o frasco com a tampa e agitar bem para reconstituir o liofilizado. Não tampar com o dedo. Utilizar recipientes plásticos com o volume total de água preparada para a vacinação e adicione a vacina reconstituída, enxaguando várias vezes o frasco de vacina a fim de evitar perdas. Para melhor avaliação da vacinação, utilizar o corante apropriado que permite a identificar as aves que beberam o preparado vacinal, pois ficam com o bico e a língua de coloração azulada.
Procedimento para Vacinação:
Vacinar em horários mais frescos do dia (início da manhã ou no final da tarde), fazendo jejum hídrico nas aves de meia a uma hora em climas quentes e 1 a 2 horas em climas frios. Lavar os bebedouros com água limpa e deixá-los sem resíduos de sabão ou desinfetante, e distribui-los de forma que pelo menos 2/3 das aves bebam ao mesmo tempo. Observar se todas estão bebendo, se não está havendo amontoamento e se os bebedouros estão bem distribuídos, de foram que a solução vacinal seja consumida em no máximo 2h e nunca em menos de 1h. Suspender o uso de medicamentos, cloro ou desinfetantes na água de bebida durante pelo menos 24h após a vacinação.

Métodos Individuais

Os métodos individuais de vacinação são aqueles em as doses vacinais são aplicadas ave a ave. Esse método tem a vantagem de garantir que cada ave receba a dose necessária de vacina para sua imunização, entretanto demanda mais tempo para aplicação.
As vacinas inativadas, só podem ser aplicadas pelos métodos individuais, já que são produtos injetáveis. E a vacina forte contra Bouba, tem como via solicitada a punção na asa, não tendo opção pelo método massal.

Vacinação ocular, nasal ou oral

Preparo da vacina:
Identificar os produtos a serem utilizados, através do rótulo. Tanto a vacina quanto o diluente devem estar armazenados à temperatura de 2 a 8º C. Reconstituir o liofilizado com o diluente apropriado, transferindo aproximadamente 3 ml do diluente para o frasco da vacina. Agitar suavemente. Devolver a vacina já diluída para o frasco de diluente, enxaguando o frasco do liofilizado várias vezes. Colocar o bico dosador no frasco com a vacina diluída, sem encostar os dedos na ponta do bico. Utilizar um material isolante entre o frasco com a vacina e a mão para evitar o aquecimento do produto. Colocar os frascos utilizados durante a aplicação em uma caixa com gelo, antes que aqueçam e com o cuidado para que toda a vacina reconstituída seja aplicada num período de duas horas.
Preparo do ambiente e vacinação:
Escolher horários mais frescos do dia para dar início à vacinação. Após a vacinação, soltar a ave com cuidado. Quando usar a via nasal, fechar uma das narinas com o dedo e instilar a gota na outra narina. Observar a absorção da gota de vacina antes de soltar a ave. A dose correta de vacina é de 0,03 ml, o que corresponde a uma gota. Observar a posição correta do aplicador na vertical para manter a uniformidade da dose. Somente utilizar aplicadores em boas condições.
Todos estes procedimentos são idênticos para as aplicações ocular, nasal e oral, diferindo apenas no local de instilação da gota de vacina, no olho, narina ou bico, respectivamente, conforme a via escolhida.

Via membrana da asa:

Preparo da vacina e vacinação:
Reconstituir o liofilizado de vacina com o diluente apropriado. Mergulhar somente as agulhas duplas do aplicador na vacina diluída, tendo cuidado de não molhar  a parte plástica do aplicador. Com o aplicador na posição vertical, perfurar a membrana da asa pela parte de baixo. Retirar as penas do local de aplicação na asa da ave, antes de introduzir as agulhas. Observar a presença de vasos, nervos e ossos na aplicação, para não atingi-los. Utilizar um aplicador para no máximo 1000 aves. Agitar o frasco de vacina com frequência durante a aplicação. Observar se houve “pega” da vacina 7 a 10 dias após a vacinação. Uma boa vacinação deve apresentar entre 90 a 100% de “pega” com lesões de grau variável.

Via injetável (subcutânea ou intramuscular)
Preparo do equipamento:
Utilizar material (agulhas e seringas) esterilizado por fervura ou autoclave. Não usar desinfetantes no equipamento; Regular as vacinadoras na dose indicada e conferir antes da vacinação. Usar agulhas de tamanho único (10X10). Trocar as agulhas com frequência durante a vacinação.

Subcutânea:
Aplicar a vacina no terço médio do pescoço, com a agulha em direção ao corpo da ave. A pele deve ser levantada formando um bolsão onde deve ser introduzida a vacina. Evitar aplicação intradérmica.

Intramuscular:
Pode ser aplicada no músculo do peito ou da coxa da ave. A aplicação no peito deve ser feita na região lateral a quilha, com a introdução da agulha formando um ângulo de 45º, evitando atingir as vísceras. A aplicação na coxa deve ser feita na parte central da região lateral do músculo, evitando ossos, vasos e nervos.

Observações:
As vacinas oleosas não devem ser aplicadas geladas, portanto é recomendada a sua retirada do refrigerador pelo menos 24 h antes da aplicação. As sobras de vacinas nunca devem ser utilizadas, pois não existe mais garantia de qualidade do produto depois de aberto. As vacinações injetáveis podem ser avaliadas através de necropsia de aves de descarte, para observação da correta aplicação.
Um calendário de vacinação funciona como um roteiro e deve ser modificado de acordo com a necessidade do local. Ocorrência de surtos ou inexistência de casos das doenças devem servir de base para a tomada de decisão de quais vacinas utilizar e quando utilizá-las. Na dúvida busque auxílio de um Médico Veterinário especialista em aves.

Tabela 1. Vantagens e desvantagens das vacinas atenuadas e inativadas.
Tipo
Vantagens
Desvantagens


A
Conferem imunidade local, humoral e de mucosa.
Necessitam pouca massa antigênica
Induzem rápida produção de anticorpos.
Permitem várias vias de aplicação.
Riscos de reversão à patogenicidade e disseminação de patógenos estranhos.
Menor uniformidade e duração dos títulos.
Risco de ocorrência de reações pós-vacinais.



I
Sem riscos de reversão e disseminação do agente.
Resposta imune mais uniforme e duradoura
Mais estáveis durante a armazenagem
Menor risco de interação do agente vacinal com outros que possam provocar reações pós-vacinais
Geralmente exigem “primers”.
Mecanismo de proteção celular e de mucosa fracos ou inexistentes.
Necessitam maior massa antigênica.
Exigem aplicação individual.
Legenda: A = Atenuada (viva); I = Inativada (morta).


Tabela 2. Calendário de vacinação contra doenças avícolas – Doenças parasitárias
Doença/Bioagente
Faixa etária
Tipo de vacina
Via de aplicação

Coccidioses aviárias
Eimeria spp
Ocular ou nasal. Dose única com 6 a 8 dias de idade.
Spray. Dose única com 1 dia de idade.
Vacina viva. Pool contendo 7 espécies de Eimeria que ocorrem a campo no Brasil. Produzida em aves SPF.

Ocular ou nasal.

Legenda: IM = Intramuscular; SC = Subcutânea; FEP = Fibroblasto de embrião de pinto; SPF = Livre de patógenos específicos.

Tabela 3. Calendário de vacinação contra doenças avícolas – Doenças virais
Doença/Bioagente
Faixa etária
Tipo de vacina
Via de aplicação


Artrite viral aviária
1ª. dose com 7 a 10 dias de idade.
2ª. dose com 30 a 40 dias de idade.
3ª. dose a partir de 120 dias de idade.


Virus vivo. Liofilizada.


Via oral, na água de bebida

Bouba Aviária
Poxvirus aviário

Com 1 dia de idade.
Bouba suave. Atenuada. Liofilizada. Amostra galinha. Produzida em FEP.
SC. 0,2 mL na região dorsal do pescoço.

Bouba Aviária
Poxvirus aviário

A partir de 21 dias de idade.
Bouba forte.
Atenuada. Liofilizada. Amostra pombo. Produzida em ovos SPF
Punção da membrana da asa, com aplicador próprio.

Bronquite Infecciosa das Galinhas

1ª. dose entre 10 a 14 dias.
2ª. dose com 16 semanas.
Atenuada. Liofilizada. Produzida em ovos SPF.
Na água de bebida.



Doença de Gumboro
SC, ocular ou nasal em pintos de 1 dia.
Na água de bebida com 14 dias de idade e repetir na 10ª. semana de idade.



Atenuada. Liofilizada. Produzida em ovos SPF.
Via subcutânea 0,2 mL na região dorsal do pescoço.
Via ocular ou nasal. Uma gota na narina ou no olho.

Doença de Marek

Com 1 dia de idade.
Liofilizada. Origem Herpesvirus origem peru.
Via subcutânea 0,2 mL na região dorsal do pescoço.


Doença de Newcastle
1ª. dose com 7 a 10 dias de idade.
2ª. dose com 30 a 40 dias de idade.
3ª. dose com 120 dias de idade.

Viva. Amostra La Sota. Liofilizada. Produzida em ovos embrionados de galinhas SPF.
Ocular ou nasal. 1 gota na narina ou olho.

Pneumovirose aviária ou Síndrome da Cabeça Inchada
Pneumovirus aviário
Ocular/nasal
Dose única na 1ª. semana de vida.
Na água
1ª. dose com 6 semanas de idade.
2ª. dose com 12 semanas de idade



Virus vivo. Liofilizada.

Ocular ou nasal. 1 gota no olho ou narina.
Na água de bebida.
Legenda: IM = Intramuscular; SC = Subcutânea; FEP = Fibroblasto de embrião de pinto; SPF = Livre de patógenos específicos.

Tabela 4. Calendário de vacinação contra doenças avícolas – Doenças bacterianas
Doença/Bioagente
Faixa etária
Tipo de vacina
Via de aplicação

Cólera aviária ou Pasteurelose aviária
Pasteurella multocida
1ª. dose entre 14 e 16 semanas de idade
2ª. dose 4 semanas após a primeira dose


Inativada. Emulsionada em óleo.

IM. 0,5 mL na musculatura do peito.

Colibacilose
Escherichia coli
1ª. dose com 3 semanas de idade.
2ª. dose entre 18 e 20 semanas.
Inativada emulsionada em óleo mineral
IM. 0,5 mL na musculatura do peito

Coriza Infecciosa das Aves Haemophilus paragallinarum
1ª. dose com 12 semanas de idade.
2ª. dose entre 16 e 19 semanas (deve ser oleosa).
Inativada emulsionada em gel de hidróxido de alumínio ou óleo mineral
IM. Dose mínima de 109 UFC. Músculo da perna ou do peito

Micoplasmose
Mycoplasma gallisepticum

A partir de 5 semanas de idade.

Atenuada.
Amostra MG70.
Liofilizada
Via ocular/nasal. 1 gota em um dos olhos ou narina.

Paratifo aviário
Salmonella spp
1ª. dose com 12 semanas de idade.
2ª. dose. com 20 semanas.
Inativada e emulsionada em adjuvante oleoso.
IM. 0,5 mL na musculatura do peito.

Tifo aviário
Salmonella gallinarum
1ª. dose entre 10 e 12 semanas de idade.
2ª. dose entre 14 e 18 semanas.
Atenuada. A cepa 9R pode causar a doença. As bacterinas são pouco eficazes.
SC. 0,2 mL na região dorsal do pescoço.
Legenda: IM = Intramuscular; SC = Subcutânea; FEP = Fibroblasto de embrião de pinto; SPF = Livre de patógenos específicos.

Referências bibliográficas

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BIOVET, Técnicas de Administração de Vacinas Avícolas, Informativo Técnico, Brasil, 1992
CALNEK, B. W (ed). Diseases of poultry. 10 ed. Iowa: Iowa State University Press, 1997, 1080p.
REVOLLEDO, L; FERREIRA, A. J. P (orgs). Patologia aviária. 1 ed. São Paulo: Editora Manole, 2009, 510p.
RITCHIE, B. W; CARTER, K. Avian viruses function and control. 1 ed. Florida: Wingers Publishing, 1995, 515p.
RITCHIE, B. W; HARRISON, G. J; HARRISON, L. R. Avian medicine: principles and application. 1 ed. Florida: Wingers Publishing, 1994, 1384p.
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THRUSFIELD, M. Epidemiologia Veterinária. 2 ed. São Paulo: Editora Roca, 2004, 556p.


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